Animal Social

terça-feira, 26 de janeiro de 2010

De-Sis-Tir








Christian Boltanski











Logo aos seis anos perdeu de forma drástica o seu bem mais precioso: a boneca de cabelos dourados, vestida de bebê, batizada Lily, presente de sua tia Helena, trazida dos Estados Unidos. O algoz foi o cão corpulento conhecido como Janjão, que mastigou lentamente a cabeça da pobre criancinha sem nem se mover de seu lugar. Mesmo tendo recebido uma dúzia de bonecas depois, ficou ali, hipnotizada na morte súbita e prematura de sua “filhinha”.

Aos dezesseis foi a vez da gata Shantala morrer envenenada depois de ousar os telhados da vizinhança! E mesmo com toda "caminha", "comidinha", "almofadinha", "coleirinha" de pedras e perfume para felinos, a gata foi levada dela por uma fatalidade sem sentido, algo totalmente imprevisível para quem tomava conta do bichinho como se fosse a própria filha!

Quando completou vinte e dois anos recebeu o maior de todos os golpes, perdeu um aluninho de sua classe primária, vítima de uma meningite cruel. Ficou com o coração partido por vários dias e a noite sonhava com o pobrezinho chamando seu nome. A flor de crepom que o pequenino lhe dera no dia do mestre se transformou em pesado símbolo de tristeza.

No dia do noivado a mãe emocionada ajeitava-lhe o penteado quando lhe fez acordar para a maior de todas as tragédias, a numerosa família Menezes logo estaria maior se dependesse da vontade de Castilho, o noivo forte e cheio de saúde que não via a hora de ser papai. Tendo absoluta certeza de não suportar tamanho sofrimento, fugiu pela janela, atordoada demais para dar qualquer explicação.


sábado, 16 de janeiro de 2010

Co-Li-Dir












 Bresson









Paulo: No que está pensando, docinho? (carinhoso)

Fernanda: Hum?! (distraída)
              
Paulo: Você, amor... No que está pensando?

Fernanda: Nada...

Paulo (fazendo graça) : “Nada, nada”...  Por que será que quem está com os olhos fixos, a boca entreaberta, o rosto distante de qualquer civilização, diz que não está pensando em nada?

(os dois riem)

Paulo: Vamos me diga: No que está pensando?

Fernanda: Agora estou pensando no que você disse...

(risos)

Paulo: Não vale! Quero saber no que pensava antes.

Fernanda: (carinhosa) Meu bem, deixa para lá, é hora do jantar...

Paulo: (curioso) E daí? É tão ruim assim que vai acabar com meu jantar?

Fernanda: Não, não é isso... É que... Ah! É coisa minha...

Paulo: (curiosíssimo!) Ah, não, Fernanda! Agora complicou. Como assim “coisa sua”? E eu? Não sou seu companheiro? Não sou seu?

(ela ri)

Paulo: Sou ou não sou? (abraçando com força)

Fernanda: (seduzida) É. É sim...

(Abraço, beijo, carinho)

Fernanda: (hesitante) Tá... Mas é complexo... Vai querer escutar?

Paulo: Fernanda, assim você me ofende... Desde quando eu preciso de tanta cerimônia?

Fernanda: Bem... Ontem eu estava na faculdade e o professor de sociologia contou uma história horrorosa sobre um assassinato de mulheres.

Paulo: (interessado) É? Foi aqui no Rio?

Fernanda: Não. Ou melhor, poderia ter sido, mas foi em uma escola em Montreal.

Paulo: Não vi nada nos jornais...

Fernanda: É que foi em 1989...

Paulo: (admirado) Ah....

Fernanda: (com seriedade) Um homem chamado Marc Lépine, entrou armado em uma classe de engenharia mecânica e forçou homens e mulheres a se separarem.

Paulo: (atento) Sei...

Fernanda: (envolvida) Depois, Lépine fez com que os homens se retirassem da sala e em seguida, atirou contra todas as mulheres, matando as 14 estudantes!

Paulo: Nossa!

Fernanda: (com ênfase) Só matou mulheres!

Paulo: (tentando descontrair) Vai ver era bicha...

Fernanda: (surpresa) Paulo! (repreendendo) Eu estou falando sério!

Paulo: Desculpe...

Fernanda: O atirador continuou a chacina em outras partes da faculdade, atirando sempre contra as estudantes, deixando mais 13 feridas!

Paulo: (mostrando interesse) Nossa! Que coisa horrível! (reflexivo) Que mundo louco! Imagino o quanto você ficou mexida com a história. Você sempre foi uma mulher sensível para estas maldades todas do mundo. (pausa)
(encerrando o assunto) É bife?

Fernanda: (refletindo) Que bife? (se dando conta) Paulo! Eu estou falando de um crime medonho e você me pergunta de bife!?

Paulo: (sincero) Perdão, amor... Você sabe que não sou muito de pensar nessas coisas de violência. (carinhoso) Dá beijinho, dá?

Fernanda: (impaciente) Não acabei de falar!

Paulo: (confuso) Não era sobre o tal assassinato coletivo que você estava pensando?

Fernanda: Não exatamente...

Paulo: (mais confuso ainda) Como assim?

Fernanda: (misteriosa) Saber desse negócio horrível me fez pensar em outras coisas.

Paulo: (encerrando o assunto)  ...Fernanda, o mundo é assim mesmo. (Mudando de foco) Vamos comer?

Fernanda: Espera, agora deixa eu terminar de falar!

Paulo: Ah, tá... (sentando-se, inquieto)

Fernanda: Fiquei pensando porque ele quis matar só mulheres...

Paulo: (tentando definitivamente encerrar o assunto) Não exagera amorico, o mundo é todo violento mesmo. Aqui na rua a dona Samara não te contou do menino que quebrou o braço do outro? Crianças, e mesmo assim, violentas.Violência tem em toda parte.

Fernanda: Mas contra a mulher é sempre mais pesado. Já reparou? Queimar, amarrar, mutilar, espancar, jogar ácido, prender, castrar...

Paulo: (impaciente) Ah, Fernanda! Pelo amor de Deus! Eu não quero perder a fome...

Fernanda: (alterada) Já imaginou morrer queimado?

Paulo: (confuso) Queimado? Mas não foi um monte de tiro que o cara deu?

Fernanda: Eu estou falando da Inquisição!!!!

Paulo: (mais confuso ainda!) E de onde surgiu inquisição no assunto???

Fernanda: (alteradíssima) Eu estou falando de forma abrangente, genérica, tentando te mostrar o quanto já nos sacanearam!!!!

Paulo: (totalmente perdido) Quem?!

Fernanda: (indignada) Vocês!

Paulo: Nós?!
(pausa)

Paulo: (se dando conta) Você está fazendo um discurso contra os homens? É isso? Que coisa antiga Fernanda!

(pausa)

(silêncio)

(algum tempo)

Paulo: (tentando apaziguar) Meu bem, eu já entendi, tudo bem. Você ficou chocada, eu entendo. Mas o mundo é assim, pessoas se sacaneando o tempo todo, um monte de guerra, fome, etc. Não é possível que você vá se envolver tanto a ponto de perder a cabeça e se voltar contra mim...

Fernanda: Você só pensa em você?

Paulo: Eu?!!! Que história é essa? Quem mandou eu perguntar o que você estava pensando?

Fernanda: Perguntou o que eu estava pensando e...


Paulo: (cortando e perdendo totalmente a paciência!) Eu queria saber o que você estava pensando, não o que estava tramando contra mim!

Fernanda: Eu?!!

Paulo: É claro! Imagina se eu vou gostar de um assunto como este? Na hora da janta? Parece assunto de mulher revoltada, amargurada, cheia de paranóias, feminista!

Fernanda: Revoltada? Amargurada? Feminista!? Mas você queria saber o que eu pensava...

Paulo: Vai ficar menstruada! Só pode! Mas vê se toma um calmante ou um chá de semancol...

Fernanda: Seu grosso!!!

Paulo: Ah! Eu grosso? Tá vendo? Já tá jogando a revolta para cima de mim...
Daqui a pouco tô dormindo e acordo com o ouvido cheio de água fervendo. Deus me livre!

Fernanda: Paulo, não grita comigo! Foi você quem perguntou!

Paulo: E você fez questão de dizer, que droga! Você é mulher, cacete, uma mulher tem que ter mais sensibilidade, porra!




segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

A-Flu-Ir










Wolfgang Moersch


A ginecologista e obstetra Doutora Maria Elizabeth Monteiro, 45 anos, dona de todos os títulos e diplomas possíveis, cabíveis e imagináveis, conseguidos em anos de estudo e disciplina, reconhecida por sua indiscutível competência, renomada por seus partos bem sucedidos, aplaudida em suas palestras por toda a América Latina, foi atingida, na manhã de alguma segunda-feira, por um amor imenso.
No início, foi arremessada com tamanha urgência pelas vias do inesperado que chegou a imaginar ter adquirido alguma síndrome misteriosa envolvendo crises inexplicáveis de choro, longas horas de contemplação ao teto, súbitos ataques de riso, suores noturnos, necessidade de exercitar-se.
Atentou-se para a realidade e tentou recuperar-se. Conseguiu parcialmente, já que aquela realidade não era o comum de seus dias e as providências a serem tomadas passavam todas pelo abismo desconhecido da primeira vez. Fez o que pode e entre as coisas que pode, fez-se feliz da vida!
Porém, a rotina foi totalmente comprometida e a secretária do concorrido consultório de Ginecologia e Obstetrícia chegou a conclusão de que não estava preparada para tanta alternância no dia a dia do impecável atendimento e foi obrigada a sugerir com toda a discrição possível que sua chefe pensasse em férias.
Liz não relutou em aceitar que era preciso se por em outro estado geográfico para poder expandir tudo o que lhe havia tomado o peito, tudo o que estava dentro da corrente fervente daquela novidade. Percebeu que, no instante em que se envolveram, ancorou o coração no reconhecimento de sua metade, da outra pessoa cujo nome deveria estar gravado desde o nascimento, ao lado do dela, na lista insondável dos pares.
Explicou-se moderadamente para os dois filhos dizendo haver muito tempo que não tirava férias. Os dois, um rapaz de 15 e uma moça de 17 acharam graça ao ouvir tantas satisfações por parte da mãe. “Ficamos na casa do pai, mãe, não te preocupa”. Aceitou de imediato, aproveitando-se do excelente relacionamento que tinha com os filhos e com o ex- marido.
De porte de um destino que só ela conhecia, partiu de carro para uma chácara em Itaipava onde já lhe esperava o homem gentil, dono de uma conversa irresistível, cabelos merecidos de carinhos, corpo flexível como o de um menino, olhos que pareciam sorrir sem parar, sorriso que abrandaria qualquer tormenta.
Lá, entre as surpresas que deslumbrava nas conversas que foram atrasadas durante toda uma vida, enquanto respirava o brilho intenso do toque amoroso, nos momentos em que se sufocava de tanta felicidade, se deu conta do quanto era preciso entender de Amor para que aquele homem tivesse se sagrado tão exímio Jardineiro.  


sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

Des-Co-Brir



Ansel Adams                                                                  





Foram morar no campo! Era a realização de um sonho do casal de músicos que acreditava no espírito das flores, na alma da floresta, na Terra como uma grande mãe. Apaziguados pelos aromas de cachoeiras, borboletas, hibiscos e avencas, no amor feito ao testemunho das estrelas de verão, conceberam um filho para herdar o paraíso!

            Dádiva quando é dádiva vem em dobro, nasceram gêmeos a enfeitar as composições do pai na doce voz da mãe. Bento e Benedito eram uma coisa só, riam ou choravam à medida que o outro começava e assim aos quatro anos já eram um complemento único para o casal. O pai e a mãe se orgulhavam dos prodígios de “Ben e Dito” que beijavam as plantinhas e conversavam com as formigas.

            Tudo ia bem até os oito anos. Sem avisar que havia chegado, a maldade tomou conta dos meninos em uma tarde quando a mãe e o pai ensaiavam na varanda com seus amigos da banda “Luz intensa” .

            Era um Gryllinae, um grilo doméstico muito comum nos campos, mas para os meninos foi a grande chance de separar uma cabeça de um corpo. Fizeram sem muito ritual, encontraram o bichinho na folha de uma planta e aos modos da idade, submeteram o inseto a uma cirurgia para ver se o corpo sobrevivia sem a cabeça.

            As lágrimas da mãe nos braços do pai deixavam a cena ainda mais inconsolável! “São monstrinhos perversos os meus filhos! O que vamos fazer?” O pai tentava acalmá-la, mas no íntimo se sentia decepcionado com o gesto de covardia dos filhos com o pobre animalzinho.

            Enfurnados na casa da árvore, Ben e Dito tentavam em vão fazer retornar a vida ao grilinho, usando o tubo todo de cola polar. Desistiram tristíssimos, de uma vez por todas, da medicina.




quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

Trans-Fe-Rir

















 Pierre Verger



            Já não era mais a negrinha magricela a empilhar roupa sobre a tábua de passar, a mulher franzina cuja maior especialidade fosse desengordurar paredes ou desamassar os vestidos de minha esposa. Dependurada na janela de meu apartamento, muitas vezes desafiou a gravidade para subtrair poeiras do vidro na ânsia por vê-lo translúcido, mesmo que sua face denunciasse uma dúzia de vezes os olhos úmidos pelo temor de despencar.

Ali jaziam dela todas as correntes da escravidão, em todos os tempos e por todos os poros. Escancarava os belos dentes como fossem as presas de algum animal extinto, lá pelos idos da África pré-colonial, do quadril nasciam os ritmos imemoriais dos atabaques ainda por inventar, seus pés manipulavam saltos dignos dos mais nobres assoalhos, a gargalhada ecoando no espaço aberto do salão principal, nos conferia a certeza de sermos infinitamente menores diante dela.

Ali não havia a empregada doméstica diariamente submetida à inferioridade de ter nascido miserável, a que entrava no trem inchado por anônimos tatuados pela insignificância, nem tinha nas vestes a assinatura dos que nada tem. Agora, ao rufar dos tambores, refutava com ela minhas certezas nascidas em batismo católico cristão e eu via emanar das profundezas ancestrais da roda de sua saia em vermelho e negro a Rainha das Ruas Cruzadas, coroada no solo profano dos Terreiros  Sagrados  da Umbanda!

 Todos nós da assistência a reverenciávamos com fervor, todos nós calávamos ao som de suas ordens, todos nós fazíamos coro para cantar os seus pontos, porém eu ia mais longe, eu a adorava com a devoção de um fanático, com os olhos de um faminto, no íntimo de meu desejo mais profundo...



quinta-feira, 29 de outubro de 2009

Pre-Te-Rir








Felipe Abreu








São duas árvores magníficas, mesmo tamanho, provavelmente mesma idade, copas generosas, troncos imensos para a calçada, deslumbrantes para a visão.

Estão uma ao lado da outra. Pássaros se esbaldam, inclusive um casal de papagaios que vem de três em três meses consumir as frutinhas que nela nascem. Morcegos também.

Dei nome para uma das árvores - a que faz frente com a janela de meu quarto - chamei-a “Miranda”. Depois, em conversa com a irmã descubro que ela já havia denominado a mesma árvore de “Ava”. Em acordo rebatizamos: “Ava Miranda”.

Alguns dias e o zelador Antônio se referiu a ela como “Carla”, outra moradora, ralhando com o filho, recomendou que ele não chutasse a “Estela”. Descobri que homens e mulheres do prédio em frente e também homens e mulheres do prédio onde moro já haviam batizado a árvore dos mais variados nomes: “Helena”, “Circe”, “Diana”, “Diva”, “Dalva”,  até "Maria". Nenhum nome masculino.

Para a outra árvore não há qualquer denominação. Inclusive eu não pensei em nomeá-la.


terça-feira, 27 de outubro de 2009

Pro-Fe-Rir














Sebastião Salgado











- A roupa! E já corriam as três filhas para acudir a mãe, na tentativa de salvar do varal os alvos lençóis, as camisas de linho, as calças masculinas. Pequenas, as meninas erguiam-se nos pezinhos para desprender os pregadores e davam pulinhos para evitar que se encostassem as peças no barro do chão.

- Chuva maldita!!!! Esbravejava levantando as mãos para o céu.

Sorriam escondidas e timidamente as meninas, achando graça na ousadia dos adjetivos que a mãe expelia.

- Quero água para beber! E já corriam as três filhas para acudir a mãe do calor que sentia, enquanto encostada ao tanque, lavando a trouxa de roupa que garantia o sustento de sua casa. O sol queimando-lhe a cabeça fazia escorrer uma cachoeira de suores que se misturava  com a água do copo, indo se confundiar como coisa só aos olhos das menininhas. Ela batia as roupas na pedra do tanque como se as quisesse aniquilar. É claro que junto vinha um vociferar ancestral, um xingamento exagerado:

- Sol maldito!!!! E erguia as mãos para o céu em protesto, ou desafio.

Sorriam escondidas e timidamente as meninas, achando graça na ousadia dos adjetivos que a mãe expelia.



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