Animal Social

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

Flo-Rir




Don Pablo Javier Alsina, meu amante imaginário, beijou-me em um dia de agosto, aos quinze, antes de outros, muito antes de tudo. Nunca mais deixamo-nos. Se há noites em claro, entre uma madrugada e um amanhecer tardio, aparece-me sorridente e sempre portando um girassol. Aquieta-me quando se aquieta ao lado, fazendo meu peito de abrigo, depois de dar-me tanto e quanto abrigo é preciso, se há uma noite em claro, entre uma madrugada e um amanhecer tardio.

in Contos do Imaginário - 2011


quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

Des-Co-Brir







Solange Del Rio, a prostituta imaginária de meu irmão, rondou nossa casa durante as escuras noites da adolescência dele. Ficava zanzando, vestida de nada, entre o banheiro e o quartinho dos fundos, onde ele a amou mil vezes, tateando as carnes de celulose nos pôsteres da parede. Na única vez em que espiei pela frestinha da porta, Solange, a instintiva, me viu! Pediu licença um minutinho e foi até minha cara de tacho com um sorriso cordial que só quem é do ramo sabe dar. Olhou bem de pertinho para falar, carinhosíssima: “Vai dormir bebê, um dia a vida me explica para ti”.



in Contos do Imaginário - 2011
 

quinta-feira, 18 de agosto de 2011

U-Nir




Ele me disse, junto ao sol que descia ao horizonte, que vive a carregar minha alma grudada ao corpo. É razão suficiente para amá-lo, e basta. Porque entre todas as coisas que pode carregar sobre mim, a necessidade, a vontade, a Roma que leva ao meu amor, é a alma que ele escolheu para ter consigo.

Há o perfume das nossas ações de poro a poro, posto por toda a extensão da pele que ele nutre, há o poder de nossas carnes quando condensadas pelo fogo de nossas necessidades. Há nele, sabendo que há em mim, o estado líquido de nossos desmanchados prazeres... Mas é da alma que ele se lembra e minha companhia é, antes de tudo, essencial para a sua alegria.

Um homem assim será amado para sempre.

sexta-feira, 1 de julho de 2011

Pre-Ve-Nir



São 18.35, vou ao pipoqueiro comprar a mais deliciosa contravenção que restou ao meu cardápio rígido: Pipoca! A nota de dez está tinindo, nova, recém feita. Cheiro com vontade. Empolgada, ofereço ao pipoqueiro o aroma capital. Ele me olha, severíssimo: “Nunca, jamais cheire dinheiro, dona”. Penso em perguntar o motivo, desisto. Antônio Azevedo já acena para nós, seus diários passageiros, no intuito do embarque no ônibus. Ele não resiste e revela, enquanto está remanchando para colocar a delícia no saco de R$ 2,00, meio decepcionado por eu não perguntar: “Já cheirou defunto?” “Como?” “Defunto, já cheirou defunto?” 18.42 e eu não me lembro de ter cheirado mortos. Respondo qualquer coisa: “Não, não”. “Tem o mesmo cheiro, dinheiro novo e defunto”. Incompreensível para mim tal associação. Reflito dentro da boa educação e retruco: “Credo! Não vou voltar a cheirar dinheiro de novo, jamais!” É mentira, obviamente. 18.47, embarco, Antônio tece as gentilezas de sempre. Acomodo na poltrona da frente, reclino, vou dar início ao ritual: Pipoca/paisagem, o Centro do Rio me encanta! 18.50, uns segundinhos depois de Antônio fechar a porta, um retardatário se precipita, avisto de imediato o passageiro, minha cara vai ao chão, entra no 3228 alguém que eu julguei morto por pelo menos 10 anos. 18.57, o pipoqueiro estava certo!

quarta-feira, 27 de abril de 2011

Su-Prir




Sou um canteiro de Lagoa de Junco,
não sei escrever paralelepípedo,
não sei dizer paralelepípedo,
mas se faço um paralelepípedo
troco o cabo da marreta!

A marreta é meu objeto de comida,
de casa, de roupa, de dormida.

Sem a marreta não vivo
sem a marreta sou esmagado pela pedra da fome.

Não sou excluído,
sou inexistente.

terça-feira, 12 de abril de 2011

Tra-Ves-Tir



           Maranjëla, Deusa Africana da beleza e da Iluminação, flutuava deslumbrante pelas históricas ruas do centro do Rio de Janeiro, incumbida de transmitir o equivalente a 400 mil Watts de potência de sua Luz aos seres agraciados com a divina sorte de cruzarem com ela em sua peregrinação para o restabelecimento da harmonia cósmica e elevação dos espíritos mundanos ao Circulo Sagrado da Divindade Universal.

           Acometida de grande Amor e profunda compaixão pelos mortais, Maranjëla não se sentia confortável em sua índole de deusa, com vestimentas triunfantes e espetaculares. Ela acreditava que sua perfeição extraordinária criaria, nos que cruzassem com ela, o estado de choque trazido pelo êxtase da contemplação direta da beleza.

      Tal impacto emocional geraria um inevitável sentimento de inferiorização na natureza humana do agraciado... Reações assim em nada contribuíam para sua aproximação com os humanos e atrapalhavam definitivamente sua determinação de cumprir sua nobre e honrada missão.

       Decidiu que era necessário trajar os panos e trapos que são comuns aos mendigos e assim poder distribuir a Graça sem maiores traumas aos poucos escolhidos que com ela teriam um encontro.

       Passou a habitar um trecho da Rua Primeiro de Março, na altura do Prédio do Paço Imperial, circulando entre nós travestida de mendiga.

        Criou uma única e imutável regra para distribuição das bênçãos: Aos que lhe sorrissem de volta estava garantida a vitória sobre as trevas!


sábado, 5 de março de 2011

Sen-Tir


 Sônia MB

eu- Alô!

ele- Oi...

eu- Quem é?

ele- Sou eu querida, seu tio.

eu- Oi! Bom dia! Como você está?

ele- Arrasado...

eu- Arrasado? Por quê? O que houve?

ele- Eu fiquei sabendo o que aconteceu aí...

eu - Comigo?

ele-  É, querida, contigo...

eu-  Ô meu bem, eu estou bem...

ele- Mas eu estou arrasado...

eu- Olha, eu estou bem, de verdade!

ele- Eu já chorei muito...

eu- O que é isso? Não fique assim...

ele- Mas eu não esperava...

eu- Mas está tudo bem!

ele- Eu não acredito! Você de deve estar sofrendo muito...

eu- Não! Eu estou bem, está tudo certo.

ele- Não é possível, você é tão frágil...

eu- Estou bem, de verdade.

ele- Eu não creio. Acho que foi um golpe grande demais para você.

eu- Não... Eu já estava preparada, já esperava...  Ficou tudo bem.

ele- Não acredito! Pode dizer, está sendo horrível...

eu- Não, eu estou muito bem até. Tenho feito...

ele- (ele corta) Desculpe por eu estar chorando...

eu- Ah, não precisa pedir desculpas.

ele- É que estava protelando para te ligar por causa do teu sofrimento...

eu- Ah... Não fique assim, por favor, eu não estou....

ele- (ele corta ) Mas é muito duro! A vida é muito dura contigo!

eu- Não, não fale assim, minha vida tem sido muito boa, eu...

ele- (ele corta) Você é quem pensa, sei que sua vida é difícil!

eu- Difícil? Eu tenho feito...

ele- (ele definitivamente não a deixa falar) Não precisa esconder de mim!!!
       Pode chorar comigo, pode chorar!
       (ele chora)
       Eu sei o quanto você é frágil
       (e chora...)

eu- Ah! meu bem! Não chore... Não fique assim... Vai passar.... Vai passar...

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