quinta-feira, 25 de novembro de 2010

Des-Ti-Tu-Ir


 Torsten Wolf

Deu com a cabeça contra o muro ou contra si; fechou a face; debateu com as paredes, xingou-as, pôs a culpa na cor do quarto, na textura do reboco, na gordura dos azulejos da cozinha, na área de serviço, nas prateleiras com enfeites; preferiu ferir as mãos mas não arrancar as unhas, unhas que ficariam destinadas aos lanhos, até desfigurar o rosto do outro, pelo menos em sua ira e vontade, desfiguraria aquele que não se deu ao respeito com o amor que tanto ela sentiu e a fez privar-se dos outros homens, esquecendo Matias, Victor, Armando, Silas, Guilherme, Thadeu e até Antônio, que era impossível de esquecer, fazendo-a amar incondicionalmente seu sexo, sua boca, sua saliva, seu cheiro; despiu-se, vestiu-se, despiu-se; comeu, vomitou; acordou suando, sonhava com um desvio na estrada onde um homem sem olhos trazia uma formiga presa à boca; chorou; tardou a receber visitas, recebeu as irmãs; trancou a porta dos fundos, sonhou com ladrão; aprendeu a desaprender rápido, aprendeu a falar sozinha, aprendeu a ouvir vozes; se repreendeu; não dormiu; bebeu, fumou, queixou, sucumbiu; cortou os cabelos até parecer doente; emagreceu; enjoou, desmaiou, arrefeceu,

quando ele se separou dela.




18 comentários:

  1. Perfeito para expressar um estado de aflição, agonia,diante de um aprisionamento ao outro que não pode ser consumado internamente. Nesse caso, separar-se é aprisionar-se. Há no texto um ser aprisionado à terceira pessoa do pretérito ainda latejando como presente imperfeito. Inquietante como deve ser.

    Abraço.

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  2. marco,

    é, é isso mesmo!


    obrigada pela leitura, suas palavras são acréscimo.

    abraço.

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  3. vc conseguiu re-cons-ti-tu-ir o que parecia inexprimível, belo


    beijo

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  4. assis,

    de verdade, muito obrigada!

    um beijo.

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  5. Estados sentimentais e emocionais de extenção planimétrica, em numero e profundidade.
    Pode-se explicar a expressão 'comer o pão que o diabo amassou' usando seu texto como padrão.
    Sofre-se com a infeliz...; ou mais, ou menos, muitos já passamos por isso.

    Bjs.

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  6. sylvio,

    você capta de forma exemplar o espírito do blog!


    obrigada por ser tão presente e atencioso.

    um beijo!

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  7. belo betina, muito bem escrito, me fascinaram particularmente os ponto-e-virgula ; acho-os lindos mas quase não os uso.

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  8. homensdopantano,


    fascinante é você percebê-los! gostei bastante de sua observação.

    obrigada pela leitura e presença,

    um beijo.

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  9. "Extenção planimétrica, em numero e profundidade."

    Os sentimentos e sensações experimentadas pela personagem são inúmeros e extensos; como areia que forma uma extensa área plana, vazia, tipo um deserto, uma taiga... Gente que entra no estado de espírito dela, só vê e sente o que no 'nada' encontramos: vento, calor ou frio, silêncios sem respostas, uma certa solidão, uma certa lassidão.

    Escrever 'extenção' com 'ç', foi falha minha.

    Bjs.

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  10. sylvio,


    que leitura! obrigada!


    um beijo, meu amigo. :)

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  11. :)

    A CArla é engraçada...; quer dizer: tem bom humor...!

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  12. Medo, angústia, ansiedade....
    Melancolia, tristeza, depressão....
    Apego, morte e solidão....

    muitas palavras, nenhum sentido, quando se perde alguém!

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